Questões de espírito
Às vezes eu lembro de muitas coisas
Na manhã do último domingo tive a felicidade de conversar com um mestre espiritual sobre um esquema que ele criou para pensar certas coisas. Sem dar muitos detalhes, cabe observar que o esquema presumia três níveis ou estratos de fenômenos, a saber, os materiais, os mentais e os espirituais. Convidado a dar uma opinião sobre o esquema, tive de observar que para mim, leitor de filosofia — especificamente de filosofia moderna e contemporânea feita em grande medida na Europa —, é sempre surpreendente e interessante pensar em mais níveis do que nosso habitual cartesianismo sugere ou supõe que existam. A ideia de uma dimensão propriamente espiritual, aliás, fez com que meu amigo Ronaldo e eu, também nessa semana — e sem qualquer relação com o episódio antecedente — conversássemos um pouquinho sobre o tal do Geist alemão. De todo modo, se o Geist hegeliano não é a mesma coisa do que a esfera espiritual na qual se crê em cousas como ressuscitações, renascimentos e reencarnações, um e outro sentido do conceito ficam meio que de fora de uma filosofia profissional que, digamos assim, se dá por satisfeita com uma definição do conceito de pessoa como ente dotado de predicados físicos e mentais.
Foi nos textos de Peter Sloterdijk que, nos últimos anos, descobri e me familiarizem com um conceito de espiritualidade associado ao de tecnologia. É por aí que caminha também o professor Ronai Pires da Rocha em seu livro mais recente, Caminhos e equívocos da escola brasileira. Em um viés antropológico por meio do qual vai compreendendo o sapiens sapiens enquanto digiana — isto é, animal simultaneamente digital e analógico —, o professor Ronai permite que vejamos que as bugigangas eletrônicas com as quais nossas crianças praticam o mesmo brain rot que nós não estão em descontinuidade com algumas tecnologias bem mais básicas e constitutivas de um certo mínimo comum da humanidade mediana. Não faz um ano que postei um trecho desse livro aqui, neste blog. Terminei por não fazer uma resenha do livro, assim como acabei não fazendo do seu Filosofia da educação, no qual, entre muitas outras coisas, aprendemos que essa nossa constituição, dependente de uma certa “encarnação” de nosso elemento espiritual em expedientes técnicos e tecnológicos, se dá quando do atravessamento do que o professor chamou de portais simbólicos. Se não sabemos se as almas renascem ou reencarnam, a perspectiva do professor Ronai nos permite compreender que elas se constituem por meio desse nascimento-encarnação na ortopedia de suas vestes simbólicas.
Se não resenhei os dois livros mais recentes, o fiz com os outros dois que os precedem, Escola partida e Quando ninguém educa. Este, que resenhei em um lugar no qual eu escrevia muito antes de começar a escrever por aqui, foi um livro cujo lançamento operou como uma espécie de marco simbólico de uma época da minha vida. Enquanto eu mesmo passava por um processo de crescimento e amadurecimento intelectual, o professor Ronai ensaiava alguns gestos na direção de uma — inacreditável, para quem foi seu aluno — aposentadoria que seria, como vimos em seus livros e vemos em seu blog, apenas o início de uma fase muito fecunda e criativa. É nesse livro que surge a expressão que passou a nomear este espaço, isto é, sentimento de enredo. Era imbuído até os ossos desse sentimento especialíssimo que eu estava na época em que tudo parecia ter relação com tudo, isto é, as descobertas que eu fazia ao longo do meu doutorado e da escrita da tese, a produção e as ideias do professor Ronai e o destino político do país. Era uma época que parecia imensuravelmente prenhe de consequências. O tempo todo parecia que alguma coisa aconteceria e, por meio desse acontecer, mudaria para sempre. De fato, aconteceram muitas coisas e, me parece, muitas coisas mudaram para que pudessem permanecer as mesmas, como sói acontecer: o freirismo fuzzy permaneceu sendo o espírito da reflexão sobre educação, uma presidência indesejável veio e se foi — adicionando outros fatores fuzzy ao espírito dos tempos, é verdade — e, quase dez anos depois do lançamento do QNE, constato — em uma posição análoga àquela que estava naqueles dias, embora hoje eu tenha mais cabelos brancos — que os desafios e provocações que o professor Ronai lançou naquela época continuam caros demais para que sejam levados a sério em cenários em que, como dizia o Barão de Itararé, “de onde menos se espera, dali mesmo é que não sai nada”.
Depois do QNE, veio o EP. Confesso que ainda nessa época, como se ainda fosse muito jovem, eu ainda esperava acontecimentos que tivessem o efeito — ou ao menos o semblante — de transformações, de mudanças, e o Escola partida parecia oferecer algo que talvez faltava no QNE. De todo modo, talvez como seu antecessor, o livro esbarra em algumas coisas que, de modo muito sagaz, parece denunciar, a saber, certas manias que se confundem com práticas que, de certo modo, constituem essa atmosfera, esse climão no qual se dá o debate no qual o professor Ronai se insere. Nesse ambiente, a regra é a atmosfera saturada de falácias estruturais, isto é, da estratégia conversacional que consiste em dizer que a conversa só pode começar depois de certas transformações nas estruturais mais gerais, básicas e profundas da realidade social. É a confusão — esta, sim, prenhe de consequências observáveis de modo fácil e rápido, quase automático, nas gerações de pessoas formadas nas licenciaturas — entre a primeira e a terceira pessoa na prática docente que, envenenada por um suposto espírito supostamente crítico, promove e faz a manutenção da dissolução da mística do professor. Se o ano do lançamento do EP foi também o primeiro ano da pandemia, o mês de outubro foi generoso e promissor ao trazer a notícia de que o autor seria homenageado em uma feira do livro.
Embora meu exemplar de Ensino de filosofia e currículo não seja a da primeira edição, lançada em 2008 — em uma cerimônia da qual, tenho certeza, umas duas ou três pessoas devem lembrar até hoje —, esse é o livro do professor Ronai que eu mais estimo e, por outro lado, menos cito. Talvez ele seja um ponto fora da curva em comparação com os demais, na medida em que tem uma energia de pedra angular de muitas coisas que (sei? suponho saber?) o professor sustenta até hoje. EFC tem qualquer coisa de programático, pede por um esforço conjunto e continuado de cuidado e de sensibilidade para a criação do que, quase dez anos depois, o professor chamará de sentimentos de enredo e de obra. Talvez por ser, em certo sentido, o mais propositivo, o livro seja também o mais ofensivo de todos os seus livros, já que haveria, em um certo nível de subtexto, uma certa premissa oculta, a saber, a de que um currículo — e de que, nele, o ensino de filosofia — tem de ultrapassar a preguiça típica na qual as disciplinas e aulas são oferecidas como presentinhos em um presépio. As páginas de EFC, que circulam entre nós há quase 20 anos, me fazem lembrar daquela ideia de Paul Ricoeur, a saber, a de que às vezes é necessário reabrir o passado e explorar aquelas possibilidades que restaram extraviadas, impedidas, que apelam e clamam por uma efetiva realização. Aliás, falar em Paul Ricoeur me faz lembrar daquela expressão que o filósofo francês tanto gostava, a saber, instituições justas. Mais serena do que quaisquer promessas de subversão das estruturas, a ideia de zelo para com as instituições justas foi uma coisa que eu só aprendi a admirar com o tempo, com o envelhecimento social, isto é, com aquilo que pude ver, testemunhar e admirar. Isso tudo já estava lá, no primeiro dos livros do professor Ronai, Sentimentos de outono, título tão belo que tive de, mais de uma vez, roubar para querer com ele dizer outras coisas. Antes da virada do milênio o professor Ronai já percebia tudo o que ia mal — e que pioraria — quando, na ocasião das breves greves, se tornou comum, normal e quase obrigatório sustentar que seria possível recuperar o tempo perdido dos e para os estudantes. Para o meu azar e para o azar do professor, meu temperamento sempre fez com que esse título soasse para mim como uma espécie de indicação da Stimmung adequada para a adequada apreciação de certas circunstâncias e cenários, como se fosse necessário, em certas situações, perceber que as folhas já estavam secando, que o sol já estava se pondo mais cedo e que, do nada, poderia advir uma fria garoa com vento. Essa afinação ou sintonia afetiva, naturalmente, não ajuda ninguém a ter o entusiasmo para zelar pelas instituições justas — a instituição filosofia profissional, por exemplo, tão frequentemente praticada sem um senso mínimo de autoconsciência profissional e sensibilidade para certa missão cívica hoje possível para a filosofia — e, evidentemente, o título do livro do professor não era um convite ao luxo de uma nostalgia antecipada diante do que ainda não acabou. Pelo contrário: de mãos dadas com a mesma Hannah Arendt que acompanhará as reflexões do professor até seus textos mais recentes, era sobre conservar, isto é, avaliar o valor do que merece durar e transmitir essas coisas valiosas.
Como eu andei dizendo por aqui e por ali, o professor Ronai lecionou por mais tempo do que eu tenho de idade, e eu já não sou nenhum jovem. Mesmo assim, sempre considerei que ele tem mais energia, mais ímpeto, mais vivacidade do que eu jamais tive. Acho que isso é uma questão espiritual. Dos efeitos das distintas tecnologias espirituais das quais nos servimos, sem dúvida. Do espírito dos tempos, isto é, das diferentes épocas em que nos formamos e, nos formando, aprendemos a esperar ou não esperar isso e aquilo do futuro. Dos nossos espíritos pessoais enquanto expedientes de temperamento, sem dúvida. Enquanto eu sigo saracoteando daqui para acolá e procuro meu lugar ao sol e à sombra, não consigo evitar a elevação de um certo sentimento outonal que, embora faça parte da minha constituição, se intensifica ao ver a pressa aqui, a preguiça ali, a maldade acolá, conspirando para manter tudo de modo que o futuro permaneça no passado.
Ainda bem que o professor Ronai tem mais fôlego, mais paciência e não é suscetível aos arroubos desse sentimento.


