Sentimentos gnósticos
Pode ser que vivamos para raros encontros passageiros e breves lampejos de beleza
“Without a substantial self, loneliness is a meaningless concept”, diz Ben Mijuskovic, em um livro que descobri há pouco mais de três anos. Só uma subjetividade substancial pode experimentar a solidão, pois. Só uma alma pode se considerar sozinha, insulada, isolada em incomunicabilidade e solidão. A frase é sobre a filosofia de Sartre, na qual, segundo Mijuskovic, a experiência da solidão radical é impossível: quem poderia estar sozinho se sob os estratos de entulho identitário, não há ninguém? A pura ipseidade, sem qualidades, a despeito de algumas alegações de Sartre em contrário n’O ser e o nada, não chega bem a ser uma pessoa. Perdi as contas de quantos trabalhos li, nos últimos 20 anos, em que encontrei o mesmo tipo de leitura leitura de Sartre: tudo se passa como se sob estratos e mais estratos de qualidades sedimentadas, a pessoa fosse um nada. O orientador do meu doutorado concluiu que isso aproxima Sartre dos místicos. Eu, que casualmente me aproximei de colegas com tendências místicas — vamos, inclusive, falar em conjunto sobre essas coisas —, percebi que o mesmo tipo de concepção da subjetividade pode ser encontrada em Kundera.
Mais de uma vez me servi, de maneira combinada, de duas passagens dos meus dois romances favoritos, passagens que em certo sentido estão dizendo a mesma coisa. Em O homem sem qualidades, de Musil, se lê que “se dissecássemos a natureza de mil pessoas, haveríamos de encontrar duas dúzias de qualidades, sentimentos, estruturas e assim por diante, que constituem todas essas pessoas”. Em A imortalidade, de Kundera, lemos o seguinte:
“Se nosso planeta viu passar oitenta bilhões de seres humanos, é pouco provável que cada um deles tenha seu próprio repertório de gestos. Matematicamente, é impensável. Ninguém duvida que não haja no mundo incomparavelmente menos gestos do que indivíduos. Isso nos leva a uma conclusão chocante: um gesto é mais individual do que um indivíduo. Para dizer isso em forma de provérbio: muitas pessoas, poucos gestos. (…) Não podemos considerar um gesto nem como a propriedade de um indivíduo, nem como sua criação (ninguém tendo condições de criar um gesto próprio, integralmente original e pertencente só a si), nem mesmo como seu instrumento; o contrário é verdadeiro: são os gestos que se servem de nós; somos seus instrumentos, suas marionetes, suas encarnações.”
Utilizadas na minha tese com o intento de dizer que no fundo, bem no fundinho, aquilo que seria essencial e essencialmente pessoal é bem levinho, essas passagens, hoje, me suscitam o que, na época em que fiz meu pós-doc, chamei de sentimentos gnósticos, isto é, sentimentos de revolta metafísica com as coisas como são. Desacordo com o ser, conforme a própria expressão de Kundera, da qual me servi por aqui há alguns dias. Um sentimento mais ou menos blasfemo, já que também é um juízo (qual sentimento não é, no fundo, o avesso da moeda de um juízo? qual sintonia ou afinação afetiva não é um modo de se dispor ou se indispor com algo, de, avaliando, aprovar ou rejeitar aquilo que se dá?) acerca da Criação: que Criador sádico, apaixonado por piadas de mau gosto, arquitetou e executou esse plano? Que mórbido Arquiteto desenhou a planta desse ente que, sob as qualidades, é nada? Que Demiurgo perverso nos fez parecidos com papéis grudentos, de pegar moscas? Essa é a inclemente imagem presente nas páginas de Musil, segundo o qual, para quem quer que olhemos, veremos que “suas experiências lhes parecem agora a expressão das próprias qualidades, e seu destino lhes parece ser seu próprio mérito ou desgraça”, enquanto, na verdade, “passou-se com elas o que acontece com um papel pega-moscas e uma mosca: aquilo se grudou nelas, aqui por um pelinho, ali por um movimento, e aos poucos as envolveu”. Essas passagens me suscitam sentimentos gnósticos porque apontam para um cenário em que uma pessoa é um acidente entre duas impessoalidades, a saber, a impessoalidade quase monástica de quem transcendeu o ego e a impessoalidade ordinária dos colecionadores narcísicos de identificações. Estamos neste lugar “se acrescentamos ao eu um cachorro, uma gata, um assado de porco, o amor do oceano ou as duchas frias”, ou quem sabe “se decidimos acrescentar ao eu a paixão pelo comunismo, pela pátria, por Mussolini, pela Igreja Católica, pelo ateísmo, pelo fascismo ou pelo antifascismo”, como se lê em A imortalidade. E como bem lembra Pascal (certo, Christiane F?), é por essas qualidades que somos amados: beleza, riqueza, prestígio, em suma, o que quer que, faltando, suprime a razão do amor. “Que não se riam mais daqueles que se fazem honrar pelos cargos e ofícios, pois não se ama ninguém senão pelas qualidades aparentes”, adverte Pascal.
Mijuskovic tem uma ideia muito peculiar sobre a solidão ontológica, isto é, o fato, aparentemente banal, mas ordinariamente retraído da compreensão ordinária, de que em um sentido muito especial mas também muito simples, estamos sós. É trivial: não sabemos o que os outros pensam, não sabemos o que os outros sentem, podemos escolher acreditar, mais ou menos como alguns religiosos escolhem esperar. Todavia, em O morro dos ventos uivantes, Mijuskovic vê uma solução para essa solidão ontológica: quando Cathy diz “eu sou Heathcliff!”, ela aponta para um tipo muito especial de ligação entre duas pessoas. É possível, pois, que elementos de uma subjetividade, de uma identidade pessoal, de uma pessoa estejam ligados a elementos de outra subjetividade, de outra pessoa. Mijuskovic está apontando para um âmbito de intimidade que faz com que duas identidades pessoais sejam, em certo sentido, siamesas. É um tema conhecido: a pessoa do apartamento ao lado parece sua alma gêmea, mas basta que ela se divorcie e se mude para sua casa para você descobrir que com você, fora do casamento anterior, ela é outra e bem diferente daquela outrora tão irresistivelmente amável. Para retomar temas da postagem anterior, tudo se passa como se a fronteira tivesse sido cruzada: um milímetro é transposto, uma milionésima parte se altera e a figura toda se transforma, destituída daqueles traços que só podiam ser sustentados em uma situação de siamesa intimidade. Quando as qualidades amáveis evanescem, Pascal manda lembranças.
Se o caráter amável das meras qualidades — qualidades públicas, isto é, ao mesmo tempo totalmente disponíveis para quem quer que seja e muito mais singulares que as pessoas, condenadas ao papel de serem meras encarnações de qualidades, gestos, palavras — em detrimento das pessoas já poderia justificar blasfemos sentimentos gnósticos, as páginas de Kundera nos mostram que a coisa pode descer um pouco mais. Na canção acima, ouvimos o vocalista recitar a seguinte passagem d’A insustentável…
“Virava-se na cama, ao lado de Tereza que já dormia, pensando no que ela lhe dissera há vários anos no meio de uma conversa banal. Estavam a falar de Z., um amigo de Tomas, e Tereza declarara: ‘Se não tivesse encontrado você, teria me apaixonado por ele.’ Já nessa época, essas palavras o tinham feito mergulhar numa estranha melancolia. Com efeito, compreendera de súbito que Tereza se apaixonara por ele e não por Z. perfeitamente por acaso. Que, para lá do seu amor por Tomas, já realizado, havia no reino dos possíveis um número infinito de amores não realizados por outros homens. Acreditamos todos que é impensável que o grande amor da nossa vida seja algo de leve, algo que não pesa nada; supomos que já estava escrito que o nosso amor tinha de ser o que é; que a nossa vida não era a mesma sem ele. Estamos todos convencidos de que o próprio Beethoven em pessoa, com o seu ar carrancudo e os cabelos em desordem, toca o seu Es muss sein! para nosso grande amor.”
A arqui-contingência do amor de Tereza e Tomas é o lugar no qual se erige uma relação que, da parte dele, sabemos pelas páginas do livro, será enraizada na compaixão por uma mulher que entra em sua vida como se fosse um bebê abandonado em um rio, dentro de um cesto, e que fora parar na porta de sua casa. Da parte dela, conforme o romance mostra, impera e opera o desejo de reverter a contingência da carnalidade, da corporeidade, da encarnação, da indistinção do corpo próprio entre outros corpos que podem ser objeto de desejo. Envolto pela aura do amor, o caráter especial e único do corpo de Tereza seria salvo do caldo viscoso da vulgaridade que fora obrigada a viver no universo materno. Tendo isso em vista, tudo se passa como se Tereza fosse traída pelas próprias palavras ao dizer, ao admitir, ao reconhecer que bem poderia ter se apaixonado por Z. e endereçado a ele essa demanda pelo amor por meio da qual ela se tornaria especial e única. Nessa passagem, pois, descemos alguns degraus na direção das profundezas frias: a despeito das qualidades, alguém pode ser amado ou amável em razão de sua função. Penso nesse termo em um sentido próximo daquele que ele tem em lacanês, a saber, o de que alguém faz função, isto é, função pai, função mãe, função filho(a), função esposo(a), e daí por diante. Desde que se cumpra a função, não importa muito se é Tomas ou Z. que a ocupa.
Se eu fosse um sociólogo de orientação funcionalista (estou pensando em Goffman, na verdade), talvez eu achasse interessante falar na permutabilidade das instâncias de sustentação de qualidades e funções para evocar ao mesmo tempo, de modo científico, o caráter contingente de uma identidade pessoal e o caráter substituível e circunstancial de sua função. A prosa pesada e metálica do romance de Musil chega perto desse tipo de formulação ao falar em um mundo de qualidades sem homens, isto é, sem pessoas por trás do mecanismo da mascarada. Kundera, mais agradável ao paladar dos devoradores de best sellers das décadas passadas, falou em insustentável leveza. De certo modo, esse vocabulário menos técnico tem mais afinidades eletivas com o je ne sais quoi que, conforme Mijuskovic, precisa existir para poder experimentar tanto a solidão quanto, acrescento, os sentimentos gnósticos suscitados pelas imagens de mundo como as de Musil, Sartre, Kundera. Sentimento gnóstico: o revoltado sentimento de que ou as coisas devem poder ser diferentes, ou a Criação é — para além de Platão, para o qual o mundo material era misto de prisão e tumba da alma — um espetáculo circense em um filme de terror. Sentimento gnóstico: suave sensação de claustrofobia em um mundo de qualidades sem pessoas, sensação que suscita o desejo, tipicamente gnóstico, de fugir (há mais ou menos um mês comprei um livro só porque ele se chama Manual de despedidas). Sentimento gnóstico: impressão, estável e consistente, de estar sempre na fronteira entre o mundo e o purgatório, impressão que só encontra panaceia em poucas coisas, a saber, naquilo que Jonas Mekas chamou de lampejos de beleza, naquilo que Kim Krizan evocou quando, em Waking life, disse isso:
“Quando digo ‘amor’, o som sai da minha boca e atinge o ouvido da outra pessoa, viaja por esse canal intrincado no cérebro dela, sabe, através das memórias de amor ou da falta dele, e ela registra o que estou dizendo e diz sim, entende. Mas como sei que ela entende? Porque as palavras são inertes. São apenas símbolos. Estão mortas, sabe? E grande parte da nossa experiência é intangível. Grande parte do que percebemos não pode ser expressa. É indizível. E, no entanto, sabe, quando nos comunicamos uns com os outros e sentimos que nos conectamos, e pensamos que somos compreendidos, acho que temos uma sensação de comunhão quase espiritual. E esse sentimento pode ser passageiro, mas acho que é para isso que vivemos.”
Também acho.




