Derrelição II
Variações sobre Agnes, quinta parte
Em A insustentável leveza do ser, Milan Kundera repete os títulos das partes de seu romance: há duas partes chamadas A alma e o corpo e duas partes chamadas A leveza e o peso. O padrão se repete em A imortalidade: há dois capítulos intitulados Os óculos escuros. Assim, penso que também o episódio que narrarei agora merece um título idêntico ao de outro episódio perdido sobre Agnes: derrelição.
Desde que aprendeu a palavra “derrelição” com seu pai, Agnes tentou fazer uso ocasional dela em algumas conversas triviais. Criara mesmo algumas expressões: chamava de “tragédia da derrelição” as condições genéticas adversas com as quais as pessoas frequentemente nasciam e de “comédia da derrelição” os traços casuais que lançavam alguém em uma situação cômica, como o caso de uma colega de faculdade que ria muito alto e de uma maneira tão engraçada que, com seu riso, sempre criava situações de ataque de riso coletivo. Durante três meses, em sua juventude, foi acometida de um mal que fazia com que suas menstruações fossem acompanhadas de cólicas inacreditavelmente dolorosas, diante das quais não conseguia fazer nada e tinha de permanecer na cama, encolhida. “Maldita derrelição!”, pensava, nas raras ocasiões em que considerou que talvez fosse melhor ter nascido homem (especialmente porque sua mãe, enquanto mulher, não era solidária com a situação de Agnes e não acreditava que cólicas menstruais poderiam ser dolorosas até o ponto de levar alguém a ficar de cama e não cumprir com suas obrigações). Embora Kundera não nos ofereça essa parte do relato, também no dia em que, conforme lemos em A imortalidade, aos dezesseis anos, desistiu de beijar seu colega e fez para ele seu gesto encantador, a palavra lhe ocorreu novamente. Naquela noite, quando o pai chegou do trabalho e lhe perguntou como ela estava, ela respondeu:
— Tudo, exceto o fato da derrelição!
O pai riu, Agnes riu, ele riu mais, ela também, ambos riram ainda mais e quando o riso se extinguiu, percebeu uma silenciosa expressão do pai: um sorriso contido, com os cantos da boca contraídos, e um leve menear positivo com a cabeça. Agnes adorava quando seu pai fazia essa expressão, pois sabia que era uma expressão que fazia quando se impressionava positivamente com algo. A frustração por não ter beijado o colega pareceu pequena diante da sensação de que dava orgulho ao seu pai, de que era inteligente e capaz de fazer piadas inteligentes. Muitos anos depois, pensaria que só entrou na faculdade de matemática para ver cada vez mais aquela expressão no rosto de seu pai.
Contudo, o período em que estava na faculdade foi o período em que menos conviveu com seu pai. Instalada em Paris, dividia um apartamento em Saint-Germain-des-Près com uma estudante de piano. Foi essa moça, com seu riso frouxo, alto e muito esquisito, inspirou em Agnes a ideia de “comédia da derrelição”: a primeira vez que ouviu o riso da colega, Agnes ficou aterrorizada com a altura e com a configuração dos sons entrecortados que lhe saíam pela garganta. O terror foi tanto que Agnes não foi sequer capaz de disfarçar sua expressão, o que fez com que a moça, diante da expressão de Agnes, interrompesse seu riso inacreditável e lhe perguntasse o que havia acontecido. Percebendo a expressão que fazia, Agnes também riu. Porém, o riso de Agnes diante de sua colega foi baixo, abafado, sufocado, bem diferente dos ataques de riso que tinha com seu pai. Somente depois de se formar e de deixar o apartamento que dividia com a colega, Agnes foi capaz de perceber que seu riso se tornara mais discreto em reação ao caráter cômico do riso horripilante com o qual teve de conviver por alguns anos.
Agnes tinha vinte anos e namorava há seis meses quando, diante da porta do seu apartamento, escutou Viens, je t'attends, de Nino Ferrer soando desde dentro do apartamento. Contudo, a música não vinha de seu disco de vinil, mas de alguém que a cantarolava e a tocava no piano alemão de sua colega. Abriu a porta muito lentamente e viu ao piano a figura de um rapaz que lhe era desconhecido. Em silêncio, entrou no apartamento e fechou a porta muito devagar, enquanto assistia o rapaz concluir sua execução e, então, o aplaudiu. Surpreendido, o rapaz se levantou, agradeceu como se estivesse em um concerto e, com gestos muito vivos, se aproximou de Agnes. Tomou-lhe a mão e a beijou, em um gesto quase teatral.
— Você deve ser Agnes! Muito prazer, sou Arthur. Lulu está no chuveiro. Ela me falou de você, só não me disse que você era tão linda!
Surpreendida e intrigada com o sujeito, Agnes agradeceu o elogio. Lulu saiu do banho, constatou com alegria que Agnes e Arthur já haviam se conhecido, riu alto de maneira assustadora e foi preparar café para os três. Agnes sentou ao lado de Arthur em um pequeno sofá de dois lugares que ficava na sala de seu apartamento. Descobriu que este era colega de Lulu na faculdade, que também era pianista, que era descendente de alemães, que também gostava de Nino Ferrer mas que amava Schubert. Mais extrovertido do que Agnes, Arthur conduzia a conversa como um dançarino conduz sua companhia e, em meia hora, já com canecas de café esvaziadas entre as mãos, Arthur e Agnes já sabiam mais um sobre o outro do que Agnes costumava saber sobre quem quer que fosse. Diferentemente das pessoas que compõem suas identidades por sucessivas adições de qualidades, Arthur, ao falar de si, falava especialmente do quanto muito lhe parecia fútil, frívolo, risível diante do que realmente importa na vida, isto é, de coisas como o amor e a beleza. Encantada com a figura, Agnes topou passear com o sujeito (era um sábado ensolarado) e passou muitas horas com aquela figura enérgica, engraçada e muito sensível. Primeiro com a companhia de Lulu e depois sozinhos, Agnes e Arthur se demoraram em um café, depois em um jardim, depois na doce errância sem rumo pelas ruas de Paris. Anoiteceu, e Agnes não pensava em voltar para casa nem em encerrar o passeio quando percebeu que estavam na esquina de sua casa. Arthur tomou as mãos de Agnes entre as suas e a olhou nos olhos profundamente. O coração de Agnes se acelerou. Será que ele a beijaria? Mas ela tinha namorado! Como ela deveria reagir? Para sua sorte, não precisou pensar sobre isso: o som alto de uma buzina os assustou, Arthur deu um grito e um salto, soltando as mãos de Agnes, essa também gritou, por pura reação em cadeia, e a atmosfera de um possível beijo foi substituída pela atmosfera do riso. Se despediram com beijos no rosto. Agnes foi para a casa e se jogou na cama. Em meio às lembranças desse dia, adormeceu.
Os encontros de Agnes e Arthur se tornaram quase diários. Eventualmente com a companhia de Lulu, mas frequentemente sozinhos, o casal se encontrava nos intervalos das aulas, nos almoços e saíam juntos da faculdade. Se reuniam, na casa dela ou na dele, para estudar em conjunto e encontraram muitos pontos de contato entre a música e matemática. Como Arthur morava sozinho, Agnes imaginava que um dia, na privacidade do apartamento do amigo, teria algum momento íntimo com ele. Ainda se perguntava o que faria se isso acontecesse: se ele já sabia que ela tinha um namorado, ela, porém, passava cada vez menos tempo com o namorado e mais tempo na companhia do amigo, o que passou a ocasionar um ciúme crescente em seu companheiro. Um dia, depois de fazer amor, nua e dividindo um cigarro com seu namorado na cama deste, ouviu uma pergunta muito desagradável.
— Agnes, vem cá: Arthur é veado mesmo, ou vocês estão transando?
Agnes levou alguns segundos para assimilar aquela pergunta. Sentou-se na cama e olhou para seu companheiro que, por sua vez, olhava para o nada.
— Que tipo de pergunta é essa? Não gostei nem um pouco desse tom.
— Você passa a semana inteira com ele, não é possível que não transem. Ele é veado mesmo ou corta para os dois lados?
Agnes não respondeu. Em silêncio, se levantou e começou a se vestir.
— Qual é, Agnes? Pode admitir, você está gostando desse cara, não está? Ele é mais moderno do que eu? Vocês fazem amor à três, com Lulu? — disse o sujeito, se levantando. Enquanto terminava de calçar seus tênis, Agnes olhava fixamente para o namorado. Detestava esse tipo de cena, esse tipo de linguagem e, naquele instante, pensou que talvez detestasse o próprio namorado, mais do que podia perceber até então. Não respondeu. Saiu pela porta da frente e, nas ruas, se pôs a pensar: no fundo, era verdade, era óbvio que Arthur era homossexual e que só ela não havia percebido. No caminho para casa, admitiu para si mesma: era verdade, também, que estava apaixonada pelo amigo. Apaixonada, fascinada, encantada, inebriada com a sintonia, com a cumplicidade, com a sensação quase incestuosa de que agora tinha um irmão que lhe era comparsa para tudo. Todavia, sob uma nova luz, toda a delicadeza, todos os trejeitos, todas as considerações de Arthur sobre a beleza e o amor eram sagazes e mordazes como as de um Oscar Wilde do século XX. Seu amigo não era apenas respeitoso. Ele a via apenas como amiga, apenas como irmã, não como mulher.
Depois da discussão com o namorado, Agnes passou duas semanas sem vê-lo, semanas em que, todo o tempo, com olhar silencioso e investigativo, examinava todos os gestos de Arthur. Agora estava segura: Arthur era homossexual e jamais seria seu namorado. Assim, em uma tarde na qual estudava piano sentada ao lado do amigo (ela tinha noções de piano e ele a ajudava a melhorar sua técnica), Agnes fez algo que só faria de novo muito raramente ao longo da vida. Surpreendendo a si mesma, como se seu corpo tivesse vida própria, puxou o rosto de Arthur para perto do seu, com um toque levíssimo. Levíssimo também foi o toque de seus lábios sobre os lábios do amigo, de quem então, enfim, roubava um beijo. Este, paralisado pela surpresa, levou alguns segundos para reagir. O coração de Agnes se acelerou quando ela viu no rosto do amigo a mesmíssima expressão que às vezes via no rosto de seu pai. Porém, Arthur lhe acrescentava um novo gesto: depois de sorrir de modo contido, a cabeça de Arthur não balançou levemente em aprovação, mas negativamente. Agnes compreendia. Era como se pudesse ouvi-lo dizer: “não, queridinha, lamento, mas aqui você não vai conseguir nada”. Antes que Agnes pudesse reagir, porém, como um bom dançarino que conduz sua parceira, Arthur começou a fazer cócegas em Agnes, que tentou se defender. Caíram no chão, em meio aos risos de Agnes. Um minuto depois, estavam no carpete, trocando um olhar silencioso e silenciosamente profundo. Agnes rompeu o silêncio.
— Arthur…
— Você sabe que não precisa dizer nada, não é, meu bem?
Agnes sabia. De fato, muitas vezes, com Arthur, nenhuma palavra se fazia necessária. Deitada no chão da sala com Arthur, Agnes ria e, envergonhada, punha uma mão sobre o rosto enquanto mantinha a outra unida com a de Arthur. O amigo também ria e dizia “ai, ai”. Era isso a vida, afinal…
— Derrelição.
— Derrelição?
— É. As coisas que a gente não escolhe, mas com as quais vai ter de lidar a vida inteira.
Arthur pensou um pouco, sorriu e repetiu: “derrelição”. Parecia ser da ordem da derrelição, também, que naquele fim de semana a mãe de Arthur descobrisse uma doença no coração. Arthur viajaria para a Alemanha sem saber que permaneceria lá por muito tempo, até se mudar de vez para a casa dos pais, sem saber que nunca mais veria Agnes novamente. Na sexta-feira, no aeroporto, ele se despediu de Agnes (dessa vez foi ele que lhe roubou um beijo rápido, nos lábios, mas absolutamente fraterno). Quando Agnes chegou em casa, seu namorado a esperava. Tinha uma expressão nervosa. Tomou Agnes nos braços, a beijou, tentou aproveitar a ausência de Lulu para possuí-la ali na sala. Não: nas intermitências do desejo, esse traço da derrelição da própria constituição da condição humana, o corpo e a alma de Agnes só entravam em sintonia diante da imagem de Arthur, e assim seria por alguns meses, conforme ela constataria, até a paixão arrefecer sob o trabalho do tempo, que tudo separa. Naquele fim de tarde, resistiu às investidas do namorado e o afastou de seu corpo. Olhando-o nos olhos, disse uma única frase, em voz baixa.
— Estou namorando com Arthur.
Seu namorado ficou vermelho. Agnes pensou que seria agredida. O sujeito se limitou a sair batendo a porta e nunca mais falou com Agnes. Esta, sozinha no apartamento, colocou o disco de Nino Ferrer para embalar sua tarefa de arrumação da casa. Enquanto lavava louças e dobrava roupas, Agnes pensava na beleza de seu amor por Arthur e sorria. Às vezes, sentia um nó na garganta, mas este não interrompia seu sorriso. Como se no fundo soubesse que nunca mais veria amigo, no fim daquela tarde e de muitas outras, cantarolou, pensando nele, Viens, je t'attends…


